
Maio 2009/10 Ana Hatherly

Ana Hatherly nasceu no Porto em Maio de 1929. Destacou-se como poeta, romancista, ensaísta, tradutora, investigadora, professora universitária e artista plástica e foi também membro destacado do grupo de Poesia Experimental Portuguesa nos anos 1960 e 1970.
Licenciada em Filologia Germânica, pela Universidade Clássica de Lisboa, e doutorada em Estudos Hispânicos do Século de Oiro, pela Universidade da Califórnia em Berkeley. Nos anos 70 diplomou-se em técnicas cinematográficas pela International London Film School, e foi docente, em Lisboa, na Escola de Cinema do Conservatório Nacional e no AR.CO (Centro de Arte e Comunicação Visual) e Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Instituto de Estudos Portugueses.
As palavras aproximam
As palavras aproximam:
Prendem-soltam
São montanhas de espuma
Que se faz-desfaz
Na areia da fala.
Soltam freios
Abrem clareiras no medo
Fazem pausa na aflição
Ou então não:
matam
afogam
separam definitivamente
Amando muito muito
Ficamos sem palavras
In O PAVÃO NEGRO (2003)
O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
POESIA VISUAL

Os Livros Estão Sempre Sós
Os livros estão sempre sós. Como nós. Sofrem o terrível impacto do presente. Como nós.
Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como nós.
Calam a sua fúria com a sua farsa. Como nós.
Têm fachadas lisas ou não. Como nós.
Formosas, delirantes, horrorosas. Como nós.
Estão ali sendo entretanto. Como nós. O limiar do esquecimento. Como nós.
Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós.
