FEVEREIRO 2009/10       DAVID MOURÃO FERREIRA              

  

 

          David de Jesus Mourão - Ferreira nasceu em Lisboa, a 24 de Fevereiro de 1927. Licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde foi professor, destacou-se como um dos grandes poetas contemporâneos do séc. XX.

        Na sua obra, são famosos alguns dos poemas que compôs para a voz de Amália Rodrigues, como Sombra, Maria Lisboa, Nome de Rua, Fado Peniche e sobretudo Barco Negro, entre outros.Trabalhou para vários periódicos, dos quais se destacam a Seara Nova e o Diário Popular e foi autor de alguns programas de televisão, para a RTP.

Em 1996 recebeu o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores e, no mesmo ano, recebeu também a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada.

 

 

 Noite apressada

Era uma noite apressada
depois de um dia tão lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.

Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh'alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!

Escada sem corrimão
ão

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.
Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão,
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.
Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.
Sobe-se numa corrida.
Corre-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida


 É como se tivesses mãos ou garras

                              I

É como se tivesses mãos ou garras

milhões de dedos braços infinitos

É como se tivesses também asas

libertas do minério dos sentidos

É como se nos píncaros pairasses

quando nas nossas veias é que vives

É como se te abrisses - ó terraço

rodeado de abutres e raízes -

sobre o perene pânico dos astros

sobre a constante insónia dos abismos

E é como se te abrisses e fechasses

sobre a antepalavra do Espírito

É como se morresses quando nasces

É como se nascesses quando expiras

 II

Ó claridade Ó vaga Ó luz Ó vento

que no sangue desvendas labirintos

Ó varanda no mar sempre Setembro

Ó dourada manhã sempre Domingo

Ó sereia nas dunas irrompendo

com as dunas e o mar se confundindo

Ó corpo de desperta adolescente

já no centro de incógnitos caminhos

que por fora te aceitas e por dentro

pões em dúvida o sol do teu fascínio

Ó dúvida que avanças mas por entre

volutas de pavor que vais cingindo

Ó altas labaredas Ó incêndio

Ó Musa a renascer das próprias cinzas

    III

Só tu a cada instante nos declaras

que renegas a voz de quem divide

Que a única verdade é haver almas

terrível impostura haver países

Que tanto tens das aves o desgarre

como o expectante frémito do tigre

tanto o céu indiviso que há nas águas

quanto o múltiplo fogo que há no trigo

Que és igual e diversa em toda a parte

Que és do próprio Universo o que o sublima

Que nasces que te apagas que renasces

em procura da límpida medida

Que reges o mais puro e o mais alto

do que Deus concedeu às nossas vida

 

Ode à Música

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