ABRIL  2009/10         FERNANDO NAMORA                       

 

 

         FernandoGonçalves Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, no distrito de Coimbra, a 15 de Abril de 1919. Os pais eram descendentes de camponeses do concelho de Ansião, no distrito de Leiria. Estudou na Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Medicina. O seu interesse pela escrita acentuou-se durante os anos da mocidade e são dessa época as primeiras obras publicadas, nomeadamente o romance de estreia As Sete Partidas do Mundo, galardoado com o Prémio Almeida Garrett, que marca a sua adesão à corrente neo-realista.

        Concluído o curso, exerceu medicina em ambientes diversos, sobretudo na Beira Baixa e Alentejo, além da terra natal, Condeixa, e essa experiência clínica e humana permitiu-lhe recolher múltiplos elementos que aparecem transfigurados na sua obra literária.

         Entre os títulos que publicou, encontram-se os volumes de prosa Fogo na Noite Escura (1943), Casa da Malta (1945), As Minas de S. Francisco (1946), Retalhos da Vida de Um Médico (1949 e 1963), A Noite e a Madrugada (1950), O Trigo e o Joio (1954) e a sua obra poética foi reunida, em 1959, no volume As Frias Madrugadas.

Intimidade

Que ninguém 
hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao mundo.

  Pode ser tudo isso, ou nada disso.
  Mas não afirmo.
  As palavras viriam revelar-me tudo.
  E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

 

 Poema da Utopia

A noite
caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.


  No alto, a utópica Lua vela comigo
  E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
  Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
  Noite! Se o espectáculo findou
  Deixa-nos também dormir.

 

Terra

Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os Rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como
as águas dum rio.

 

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