ANO LETIVO 2009 /10

        JANEIRO          EUGÉNIO DE ANDRADE

 

         José Fontinhas (nome verdadeiro de Eugénio de Andrade) nasceu a 19 de Janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, Beira Baixa.

         Em 1932 muda-se para Lisboa e lá permanece por um período de 11 anos. Em 1939 publica o seu primeiro poema, Narciso e, pouco tempo depois, passa a assinar com outro nome: nasce o poeta Eugénio de Andrade. Em Novembro de 1942 lança o seu primeiro livro de poesia: Adolescente.1948 é o ano do reconhecimento, despoletado por As Mãos e os Frutos.  

        Por razões profissionais, em 1950,  Eugénio de Andrade muda-se para o Porto, cidade de que foi cidadão honorário e onde foi criada uma Fundação com o seu nome. Morreu a 13 de Junho de 2005.

 

 

Urgentemente

 

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

 

                       Até amanhã

 

Rumor

Acorda-me
um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
a querer voar.

A levantar do chão
qualquer coisa que vive,
e é como um perdão
que não tive.

Talvez nada.
Ou só um olhar
que na tarde fechada
é ave.

Mas não pode voar.

      Os amantes sem dinheiro

 

As Amoras

O meu país sabe a amoras bravas

no Verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul.

 

             O Outro Nome da Terra

 

 

 

 

   As palavras

 

 São como um cristal,

 as palavras.

 Algumas, um punhal,

 um incêndio.

 Outras,

 orvalho apenas.

 

 Secretas vêm, cheias de memória.

 Inseguras navegam:

 barcos ou beijos,

 as águas estremecem.

 Desamparadas, inocentes,

 leves.

 Tecidas são de luz

 e são a noite.

 E mesmo pálidas

 verdes paraísos lembram ainda.

 

 Quem as escuta? Quem

 as recolhe, assim,

 cruéis, desfeitas,

 nas suas conchas puras?

 

 Sê paciente; espera
 que a palavra amadureça
 e se desprenda como um fruto
 ao passar o vento que a mereça

 

                          Coração do dia

 

 Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

As mãos e os frutos

 O Sal da Língua 

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

                        O Sal da Língua

 

POESIA INFANTIL 

        Pastor

      Pastor, pastorinho,
      onde vais sozinho?

      Vou àquela serra
      buscar uma ovelha.

      Porque vais sozinho,
      pastor, pastorinho?

      Não tenho ninguém
      que me queira bem.

      Não tens um amigo?
      Deixa-me ir contigo.

     Frutos

 Pêssegos, peras, laranjas,
 morangos, cerejas, figos,
 maçãs, melão, melancia,
 ó música de meus sentidos,
 pura delícia da língua;
 deixai-me agora falar
 do fruto que me fascina,
 pelo sabor, pela cor,
 pelo aroma das sílabas:
 tangerina, tangerina.

Aquela nuvem e outras 

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