ANO LETIVO 2009/2010

    FEVEREIRO              ALMEIDA GARRETT 

 

 ALMEIDA GARRETT

          João Baptista da Silva Leitão de nasceu no Porto, a 4 de Fevereiro de 1799.

          Dramaturgo, poeta, romancista e político,  Almeida Garrett foi um inovador da escrita e da composição literária do século XIX.

          Participou da revolução liberal de 1820, seguindo para o exílio na Inglaterra em 1823, de onde só regressou em 1826. Foi em Inglaterra que tomou contacto com o movimento romântico.

 Em Portugal exerceu cargos políticos, distinguindo-se nos anos 30 e 40 como um dos maiores oradores nacionais. Em 1851 recebeu o título de Visconde de Almeida Garrett.

 Da sua vasta obra literária destacam-se a peça de teatro "Frei Luís de Sousa" (1844), o romance "Viagens da Minha Terra" (1846) e a colectânea de poemas líricos "Folhas Caídas" (1853).

 As minhas asas

Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,

Que, em me eu cansando da terra,

Batia-as, voava ao céu.

– Eram brancas, brancas, brancas,

Como as do anjo que mas deu:

Eu inocente como elas,

Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;

Por seus montes de tesouros

Minhas asas não quis dar.

– Veio a ambição, co'as grandezas,

Vinham para mas cortar

Davam-me poder e glória

Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,

Em me eu cansando da terra

Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,

E já suspenso da terra,

Ia voar para elas,

– Deixei descair os olhos

Do céu alto e das estrelas...

Vi entre a névoa da terra,

Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,

Para a terra me pesavam,

Já não se erguiam ao céu.

Cegou-me essa luz funesta

De enfeitiçados amores...

Fatal amor, negra hora

Foi aquela hora de dores!

– Tudo perdi nessa hora

Que provei nos seus amores

O doce fel do deleite,

O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu

Pena a pena me caíram...

Nunca mais voei ao céu.

Flores sem Fruto

 

Barca bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o laço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador,

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador!

Folhas Caídas

 

 TRONCO DESPIDO

Qual tronco despido
De folha e de flores,
Dos ventos batido
No inverno gelado
De ardentes queimores
No estio abrasado,
De nada sentido,
Que nada ele sente...
Assim ao prazer,
À dor indif'rente,
Vão-me horas da vida
Comprida
Correndo,
Vivendo,
Se é vida
Tão triste viver.

Flores sem Fruto

Beleza

Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da natureza:
Queres ser bela? - ama.

Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso? - Não; só formosura.

Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
- Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer ?
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:

É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.

Folhas Caídas

 

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