Poemas de grandes autores  portugueses 

 

Natal

Fui ver ao dicionário dos sinónimos
A palavra mais bela, sem igual,
Perfeita como a nave dos Jerónimos
E o dicionário disse-me: NATAL.

Perguntei aos poetas que releio
Gabriela, Régio, Göthe, Poe,
Quental, Lorca, Olegário...
E a resposta veio:
Christmas... Nöel... Natividade... NATAL.

Interroguei o firmamento todo
Cobra, formiga, pássaro, chacal!
aço em chispas, o pipe-line, o lodo!
E a voz das coisas respondeu: NATAL!

Pedi ao vento e trouxe-me dispersos
Riscos de luz, fragmentos de papel
Cânticos, sinos, lágrimas e versos
N, um A, um T, um A, um L...

Perguntei a mim próprio e fiquei
mudo
Qual a mais bela das palavras, qual?
Para que perguntar, se tudo, tudo,
Diz: NATAL, diz NATAL, diz NATAL!

Adolfo Simões Müller

 HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação. 

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

 

Miguel Torga

 CHOVE. É DIA DE NATAL

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

  Deixo sentir a quem quadra
  E o Natal a quem o fez,
  Pois se escrevo ainda outra quadra
  Fico gelado dos pés.

 

    Fernando Pessoa

        PRESENTINHO DE NATAL

 Eu queria ter um cestinho cheio de flores

 Para tecer um xaile de muita cor, muito lindo!

 E um retalhinho do Céu

 Para fazer um vestido azul tão lindo!

 E mais sete estrelas das mais brilhantes

 Para armar um chapeuzinho de luz!

 E mais ainda dois quartinhos de lua

 Que chegassem para uns sapatos de saltos muito altos...

 E tudo isto, depois,

 Eu dava a minha Mãe,

 Neste dia de Natal:

 O xailezinho de muita cor,

 Os sapatinhos de saltos muito altos...

 Minha Mãe! minha Mãe!

 E hoje é dia de Natal

 E só posso dizer:

 Minha Mãe! minha Mãe!

 Matilde Rosa Araújo

 Natal

 Hoje é dia de Natal.

  O jornal fala dos pobres

  em letras grandes e pretas,

  traz versos e historietas

  e desenhos bonitinhos,

  e traz retratos também

  dos bodos, bodos e bodos,

  em casa de gente bem.

  Hoje é dia de Natal.

  - Mas quando será de todos?

  Sidónio Muralha

 NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça,
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

 

   David Mourão-Ferreira

 A NOITE DE NATAL

Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois sabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos.

Vão se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes.

Perguntam logo à criada
Quando acordam de manhã
Se Jesus lhes não deu nada.

– Deu-lhes sim, muitos bonitos.
– Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos.

Mário de Sá-Carneiro

Dia de Natal

Hoje é dia de Natal
Mas o menino Jesus
Nem sequer tem uma cama,
Dorme na palha onde o pus.

Recebi cinco brinquedos
Mais um casaco comprido.
Pobre menino Jesus,
Faz anos e está despido.

Comi bacalhau e bolos,
Peru, pinhões e pudim.
Só ele não comeu nada
Do que me deram a mim.

Os reis de longe trazem
Tesouros,incenso e mirra.
Se me dessem tais presentes,
Eu cá fazia uma birra.

Às escondidas de todos
Vou pegar-lhe pela mão
E sentá-lo no meu colo
Para ver televisão.

Luísa Ducla Soares

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